Klimt

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Sede de Sangue

O diretor sul-coreano Park Chan-Wook propõe uma reflexão sobre a maneira como cada ser humano satisfaz seus desejos e necessidades, utilizando como metáfora o vampirismo. Inspirado no romance Thérèse Raquin, de Émile Zola, o filme estreia no Brasil em 2 de abril.
 Psicologia nas Telas: Sede de Sangue
De um lado temos o personagem Sang-hyeon (Song Kang-ho), padre católico que sublima seus desejos carnais na forma de ações altruístas. No início do filme ele se candidata a testar uma vacina contra um vírus, consciente da possibilidade de morte. De fato, ele morre, mas revive logo após ter recebido uma transfusão de sangue de um vampiro.
A partir de então, o padre começa a perceber algumas mudanças vinculadas a este seu novo estado. Além de sentir um desejo carnal intenso e adquirir a capacidade de voar, passa a ter uma força sobre-humana. Está posto o dilema: como conciliar sua “sede de sangue” e de prazeres carnais com sua conduta ética e moralista? Ele passa, assim, a procurar meios alternativos de sobrevivência.
>> Caso não queira saber maiores detalhes sobre o filme, sugiro parar a leitura por aqui <<

00 Poster2 Psicologia nas Telas: Sede de Sangue
O tormento do padre havia apenas começado, pois ele se apaixona por uma mulher profundamente negligenciada pela vida. Trata-se de Tae-ju (Kim Ok-bin), uma órfã que foi tratada como escrava pela mãe adotiva e seu filho, a quem prestava serviços domésticos e sexuais. Desde pequena teve de suprimir seus desejos para sobreviver àquele ambiente. Ela representa a contrapartida do padre vampiro-moralista.
Durante sua relação com ele, acaba por descobrir seu segredo e pede para que a transforme em uma vampira. Trato feito. De um lado, o padre esperava viver esse grande amor sem fazer mal a ninguém, mas a sede da órfã por vida era tamanha que sua primeira reação foi obter prazer não só com os novos poderes, mas, também, com sua nova posição. Inverteu-se assim o papel. Agora era ela quem sugava com voracidade e prazer a vida dos outros, assim como fizeram com a sua.
Este movimento de sugar a vida do outro pode ser uma analogia à condição humana, pois, desde que nascemos nos alimentamos do outro para sobreviver. Primeiro, de uma maneira concreta, o feto alimenta-se dos nutrientes do corpo da mãe; quando bebê, de seu leite. Posteriormente, de maneira menos concreta, alimentamo-nos da atenção, dos cuidados e do prazer que o outro nos dá. Dependendo do nível de angústia, “carência”, usamos o outro (e somos usados) de forma mais ou menos vampiresca.
 Psicologia nas Telas: Sede de Sangue
A questão principal abordada pelos personagens diz respeito à maneira como negociamos nossos desejos e necessidades com o mundo e a ética social e pessoal. Podemos ter vontade de matar alguém, mas nem todos matam de fato, sublimam dando soco na almofada, gritando de ódio, etc. Para que haja esta sublimação, precisamos de boa dose de saúde e de uma capacidade de reflexão e elaboração. Porém, este atributo não é comum a todos nós, pois está diretamente vinculado à maneira como fomos cuidados e à profundidade de nossos “buracos”.
Se uma pessoa é alimentada com amor, ela se torna amor. Se tratada com agressões diárias, personificará a própria agressão, que se tornará sua única possibilidade de reação. Somos aquilo que podemos, a partir do tipo de “alimento” que recebemos. Se hoje somos capazes de refletir sobre nossas ações é porque tivemos condições para isso.
 Psicologia nas Telas: Sede de Sangue
Tae-ju não teve escolha, foi escolhida. Em posse do novo poder, tratou de saciar com voracidade o enorme vazio que ocupava seu ser. Agiu como um animal, uma fera. Mas antes ela foi tratada como tal, sua humanidade não teve espaço para florescer. Deste modo, podemos entender que ela foi vampirizada e, assim, tornou-se um vampiro.
Porém, a condição vampiresca não é necessariamente sinônimo de destruição, é uma condição. Somos humanos, mas não é o fato de nascer de um ser humano que nos torna humanos, o nascimento é só o início deste longo trajeto.
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Simplesmente Complicado

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Simplesmente Complicado (2009), trama da mesma diretora, roteirista e produtora de Do que as Mulheres Gostam (2000) e Alguém tem que Ceder (2003), Nancy Meyers, aborda questões relativas à meia-idade, envelhecimento e amadurecimento. Conflitos, ansiedades e necessidades da mulher de 50, 60 anos são relatados de forma profunda e bem-humorada.
Profundidade e bom humor são, certamente, uma consequência da maturidade. Jane Adler (Meryl Streep) é uma mulher madura, separada há dez anos e mãe de três filhos. Jake Adler (Alec Baldwin), ex-marido de Jane, casou-se com uma mulher jovem e bonita, porém encontram algumas dificuldades na relação devido à diferença de idade. Durante o evento de formatura do filho mais velho de Jane e Jake, acontece uma reviravolta em suas vidas.
>> Caso não queira saber maiores detalhes sobre o filme, sugiro parar a leitura por aqui. <<
Embora idade não seja sinônimo de maturidade, nos filmes de Meyers as mulheres encontram-se na faixa de 50, 60 anos de idade, são bem-sucedidas em sua vida profissional e nos papéis sociais que desempenham com muita naturalidade e prazer. A vida afetiva, porém, é a área em que a diretora se concentra e oferece uma visão positiva sobre relacionamentos maduros.
00 its complicated poster Psicologia nas Telas: Simplesmente Complicado
Os sinais da maturidade são expressos pelas personagens na maneira com que lidam com a ansiedade, solidão, pela qualidade impressa em cada tarefa que realizam e tantas coisas mais que só obtemos com o passar do tempo e com a significação positiva de nossas experiências.
O acúmulo de vida e, portanto, de todo tipo de alegrias e sofrimentos pode trazer amargor, ressentimento e desilusão, originando defesas.
Uma das formas de defesa pode se manifestar por meio da depressão, afastamento do mundo, das relações afetivas, da criação de rituais obsessivos como forma de adquirir a sensação de que controlam algo em suas vidas.
De certa maneira, essa defesa é eficiente no que diz respeito a evitar desilusões nas relações. Porém, a vida permanece em “ponto morto”, já que só somos a partir do outro e só podemos viver de modo autêntico nas relações.
Com o acúmulo de experiências positivas importantes, inicia-se um processo de discriminação do que é saudável ou não, certa “intuição” a respeito das situações, o famoso “já vi esse filme antes…”, e realmente viu, abrindo agora a possibilidade de dar um desfecho diferente. O caminho para o estabelecimento de relações mais maduras, sinceras e verdadeiras passa, necessariamente, por experiências dolorosas que têm de ser significadas para não nos aprisionar.
As mulheres de Meyers cozinham muito bem. Transformam alimentos crus em verdadeira arte culinária. Além disso, amam flores e sabem apreciá-las em suas cozinhas, misturando sua cor e aroma com a cor e o sabor dos alimentos criativamente. Lidam com as mais diversas situações como um maestro que rege uma orquestra. Já viram um pouco de tudo, têm familiaridade com suas capacidades e sentimentos.
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Em determinado momento do filme, após terem fumado maconha e relembrado os tempos da juventude na sua pâtisserie, Jane diz a Adam Schaffer (Steve Martin): “pode escolher qualquer coisa pra comer que eu faço. O que está e o que não está no cardápio”.
Tendo escolhido, ela se põe a fazer o croissant. Assim como está habilitada para preparar a massa, o recheio e o café de maneira rápida e divertida, tem também a habilidade de utilizar suas experiências de vida como ingredientes para transformação de um momento comum em algo mágico, criativo e delicioso.
Nos dias de hoje, o vazio produzido pelo nosso tempo está tão profundo quanto a tentativa frenética de preenchê-lo. Em um mundo onde a rapidez e o supérfluo imperam, estes filmes nos lembram da importância de pararmos, refletirmos sobre nosso posicionamento diante deste momento histórico e cultural bem como as possibilidades de viver as etapas de nossas vidas de forma criativa, prazerosa e única, saboreando, enfeitando, fazendo pelas mãos criativas da maturidade uma possibilidade de recomeço eterno. Enquanto dure

Bastardos Inglórius

00 3827032527 6f4144f454 b1 Psicologia nas Telas: Bastardos Inglórios
Quentin Tarantino desenvolve seu sexto filme tendo como cenário a II Guerra Mundial durante a ocupação nazista na França.
O coronel Hans Landa (interpretado por Christoph Waltz), é o “Caçador de Judeus”, um dos principais responsáveis pela identificação e extermínio de judeus fugitivos.
Tenente Aldo Raine, ou “Aldo, O Apache” (interpretado por Brad Pitt) lidera um grupo de soldados que cuidam de aterrorizar os nazistas, são os bastardos, do título.
Shosanna Dreyfus (interpretada por Mélanie Laurent) é uma judia que conseguiu disfarçar sua identidade como órfã, herdeira de um cinema onde trabalha.
>> Caso não queira saber maiores detalhes sobre o filme, sugiro parar a leitura por aqui. <<
Uma das principais questões desse filme, dentro da minha interpretação, gira em torno da dinâmica de personalidade que envolve os personagens principais. Embora de lados aparentemente opostos, são impulsionados pelas mesmas características: comprometimento na capacidade de envolvimento, dificuldade na internalização de normas e regras sociais, ausência do sentimento de culpa e remorso, configurando uma personalidade extremamente narcisista. Este conjunto de sintomas define uma personalidade cindida que atua dentro da esfera da psicopatia.
00 inglorious basterds hans landa Psicologia nas Telas: Bastardos Inglórios
O coronel Landa é um nazista bastante obsessivo pela aparência, limpeza, postura. Mostra-se muito detalhista e perspicaz. Alimenta um prazer imenso por situações onde sente que está no controle, saboreando cada momento que pode manipular com facilidade. Tortura física ou psicologicamente uma pessoa com a mesma expressão, fumando um cachimbo enquanto ouve com orgulho o som da própria voz, define a quantidade e forma do sofrimento que irá infringir e sente o prazer de ser “Deus”. Tanta limpeza pode ser medo da própria sujeira. Tanta organização, uma resposta ao medo que sente de sua personalidade cindida, inconsistente e caótica. Tanto sadismo, prazer pelo poder e controle podem reflectir sua baixa autoestima, sua pequenez, sua impotência.
 Psicologia nas Telas: Bastardos Inglórios
Shosanna sofreu o trauma de presenciar o extermínio de sua família pelas mãos nazistas do coronel Landa. A impotência diante deste horror e a impossibilidade de reação fizeram dela uma mulher absolutamente determinada e extremada, capaz de matar ou morrer para se sentir potente novamente. Parte de sua saúde mental morreu junto à família. Ela sentia necessidade de remontar a mesma cena como algo vital, mas sob outro ângulo, ela como detentora do controle absoluto e os nazistas impotentes assim como ela antes se sentiu.
00 aldo Psicologia nas Telas: Bastardos Inglórios
Aldo Raine, o líder dos bastardos, vangloria-se de sua invulnerabilidade, frieza, indiferença, capacidade de atos monstruosos. Tudo isso, claro, saboreando um sanduíche ou cheirando tabaco. De sua maneira ele é outro pseudo “Deus”, define de acordo com seus parâmetros quem vive ou morre e em quais circunstâncias. Ele justifica: “seremos cruéis com os nazistas, assim eles saberão quem somos”.
Todos estes personagens estão presos a sentimentos terríveis de impotência que os impelem a renovar diariamete a sensação concreta de poder. Como pensam ser essa a fonte de sua cura, a vingança, entregam-se a um ciclo vicioso onde não importa a farda que estão usando, mas a motivação sádica por trás do ato.
Existem policiais e soldados que tem como função a proteção da sociedade, mas são impulsionados pelas mesmas motivações de bandidos e terroristas. Por acaso, ou devido a pequenas diferenças, estão do “outro lado” aparentemente. Quem está disposto a se colocar na “linha de tiro”, a correr o risco de matar e morrer pode não ter muito a perder. Um ser humano que sofre um trauma, uma ruptura, dependendo da fase de vida e da intensidade permanece lutando com as armas que tem para ser alguém, alguém real, pois ainda não teve condições de integrar os aspectos ambíguos de sua personalidade. Quem atua somente em um extremo não está integrado.
O diretor e roteirista Quentin Tarantino é o “Deus” de sua criação, fato que lhe concede a permissão de finalizar a II Guerra como bem entender. Embora impotente diante do fato histórico, mostra-se onipotente em sua arte, uma bela maneira de lidar com emoções conflituosas. Tarantino pôde transformar a violência exacerbada que o assola em forma de cultura, dividindo com as pessoas aspectos conflituosos de sua própria personalidade. Expressando sua agressividade por meio da escrita, dirigindo seus filmes, trabalhando seus personagens, faz um belo exercício de integração de seus personagens internos dissociados. Desta maneira sua agressividade passa por um processo sublimatório, e manifesta-se nas telas. Estes “personagens” precisam ter voz no cinema ou na vida. É melhor que seja no cinema.
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por Fernanda Davidoff

Two and a Half Man

00 two and a half men Psicologia nas telas: Two And A Half Men
Série norte-americana criada por Chuck Lorre e Lee Aronsohn, exibida nos Estados Unidos pela CBS e no Brasil pelo Warner Channel.
A série aborda com inteligência e leveza assuntos que moram nos lares de todas as famílias e que dizem respeito a todos nós.
Sentimentos como frustração, medo, vontade de amadurecer e não conseguir e angústia são abordados de forma sincera e engraçada.
Identificamo-nos e nos pegamos em muitas situações parecidas, que nos provocam sentimentos parecidos, mas “indizíveis”. Então os personagens dão “voz” ao que não revelamos abertamente, mas teríamos muita vontade de fazê-lo.
Charlie Sheen é Charlie Harper, que veste a camisa de um norte-americano solteiro e superficial, buscando a manutenção de sua “felicidade” por meio de relações amorosas sem vínculos e bastante bebida para tapar o buraco que não foi preenchido.
Alan Harper, seu irmão, interpretado por Jon Cryer, mora na casa de Charlie com seu filho e está temporariamente falido. Pense: uma vez que havia um buraco e foi preenchido com veneno, naturalmente o dono do buraco evitaria outra possibilidade de que isso voltasse a acontecer. O veneno chama-se Evelyn e é sua mãe, vivida pela atriz Holland Taylor, a quem apelidou de vampira de almas, ou “soul sucker”.
00 CharlieHarper Psicologia nas telas: Two And A Half MenEla vampirizou a possibilidade de ele confiar no mundo e nas pessoas, pois além do dinheiro, suas doses de “carinho” trazem a frieza e a falta de contato. Evelyn, uma mulher narcisista, é incapaz de olhar para as verdadeiras necessidades dos filhos e muito menos fornecer-lhes o que precisam. Agora adultos, eles já formaram defesas para sobreviver, mas só as criaram porque foram submetidos a uma mãe invasiva, controladora, que não deixou que eles se desenvolvessem sem cicatrizes emocionais.
00 AlanHarper Psicologia nas telas: Two And A Half Men
Alan estruturou-se de forma (aparentemente) oposta ao irmão. É rígido e controlador como a mãe, mas busca identificação com outras mulheres que possam fazê-lo reviver, ou melhor, viver aquilo que ele nunca viveu.
Nesse sentido, Alan é mais sadio, pois tem esperança que um vínculo amoroso possa tirá-lo desse estado rígido e possibilitar seu desenvolvimento genuíno. A falta de atributos estéticos valorizados socialmente também colaborou para uma autoestima baixa e pela busca incessante de carinho e atenção.
Berta, Conchata Ferrell, diarista de Charlie, faz a função parcial da mãe: controladora, cínica e intragável. Isso nos mostra que a “zona de conforto” de Charlie ainda está calcada nas “faltas” que essas duas mulheres representam (elas não têm afeto para oferecer) e ele prefere que continue assim.
00 jake Psicologia nas telas: Two And A Half Men
Jake, vivido por Angus T. Jones, filho de Alan e sobrinho de Charlie, é a mais nova vítima da geração que luta contra o controle, o domínio e a sedução da avó. Para justificar seu comportamento alheio, acredito que as características da mãe, Judith, vivida pela atriz Marin Hinkle, vem de encontro com as da avó paterna e contribuem para que ele construa um mundo particular, compreendido muitas vezes como alienação ou distração.
Os fins de semana que passa em contato com seu tio excêntrico e mulherengo afetam a maneira como Jake sente o mundo, tornando-o mais cínico e alienado, bem como acelerado no seu processo de desenvolvimento. Charlie apresenta oscilação de afeto e entra em conflito constante entre aumentar ou distanciar o vínculo com o sobrinho em prol da manutenção de seu mundo narcisista, provavelmente herdado pela mãe.
Os personagens são cômicos, as falas bem dosadas e o humor refinado/escrachado coexiste no seriado. Seria trágico, não fosse muuuito engraçado

A Morte pede Carona

Este post pode ser inadequado para quem ainda não viu o filme!

Dirigido por Robert Harmon em 1986, o filme mostra um personagem psicopata cansado de caminhar, como se a estrada de sua vida não tivesse fim, pelo menos para ele. Um garoto normal contracena com ele enquanto o encontro entre os dois muda todo cenário interno no qual vivem. Talvez por isso, por tantas transformações internas, o cenário externo do filme seja contínuo (a estrada). Afinal o mundo pode muito bem ser um cenário onde as pessoas e circunstâncias nos impelem a formar defesas, medos ou crescer, ter interesse pela vida. Tudo sempre dependendo das relações que estabelecemos ou temos que lidar.
Jim Halsey, vivido por C. Thomas Howell, tem de atravessar os EUA pela rota 66 para entregar um carro na California. Durante a viagem, após quase ter sofrido um acidente devido ao sono, decide aceitar o pedido de carona de um desconhecido. O carona, Jonh Ryder, interpretado por Rutger Hauer, é um personagem psicopata que está também a procura de algo nessa mesma estrada, mas certamente a busca é bem distinta. Jonh Ryder encontra-se em uma "estrada sem fim" e precisava ter um destino, encontrar um sentido nem que fosse na imposição de um limite imposto pelo outro, mas forçado por ele próprio.
Quando o motorista pergunta a J. Ryder "O que você quer?", ele responde "Quero que você me pare". E é verdade, só precisaria preparar Jim para a tarefa. Com a faca no pescoço de Jim Halsey ele diz "Diga: Eu quero morrer". Após um momento de tensão, Halsey não consegue pedir, pois a possibilidade nunca havia lhe ocorrido. Embora empurre J. Ryder do carro nesse momento, não consegue escapar dele durante todo o resto do filme.
Em determinado momento, após ter passado por tantas situações limite provocadas por J. Ryder, Halsey chega até a apontar a arma contra si mesmo, quase enlouquece. Seria isso que Ryder queria realmente? Sentiria ele uma depressão tão grande, um vazio, como uma vida cheia de estradas que não levam a lugar algum, se não ao de ter prazer em ver no rosto do outro o que ele próprio sofreu? Esse é o ciclo vicioso do psicopata e ele elegeu alguém para fazê-lo chegar a algum lugar, nesse caso, a morte como último recurso de "descansar" de uma vida interna insuportável.


House


House é uma das séries de maior audiência em todo mundo. Exibida originalmente nos Estados Unidos pela Fox, no Brasil pode ser assistida no Universal Channel e na Rede Record.
Alguns ingredientes são garantia quase certa de sucesso, por pertencerem a aspectos da vida interna de cada um de nós: Dinâmicas de personalidade complexas, difíceis de definir por generalizações de bom e mau, mas indivíduos com características marcantes, sem uma moralidade tradicional, que cativam por suas especificidades.
Pessoas que desempenham muito bem seu lado profissional, mas emocionalmente imaturas, como tantos de nós. Realmente é mais fácil desenvolvermos nosso intelecto do que nossa maturidade emocional, já que essa depende da maturidade de quem nos cerca intimamente.A medicina é uma profissão encantadora, que gera muita curiosidade. Os médicos de pronto atendimento, especialmente, lidam diariamente com a dor física e psíquica intensa, urgente, dos pacientes. Para tal, contam com seu conhecimento e com os tratamentos existentes na atualidade, que obviamente são limitados.
A maneira como o médico encara as questões relativas a vida e morte bem como lidam com o próprio sofrimento são cruciais na formação de sua capacidade para lidar com os sentimentos dos pacientes. Como não perder a humanidade, a empatia com o sofrimento do outro e, ao mesmo tempo, conseguir um distanciamento racional para lidar com a doença?
Muitos médicos adotam uma postura distanciada, como proteção. O pouco envolvimento com as questões do paciente pode poupá-lo da dor, mas o preço a pagar é o de tornar-se um médico medíocre, pois uma das coisas que um paciente mais precisa, seja no sofrimento físico ou psíquico, é a presença real de um ser humano capaz de compreender sua dor e tratá-lo integralmente.
 A série se passa em um hospital escola e os principais personagens integram a equipe de diagnósticos liderada pelo Dr. Gregory House, interpretado pelo ator inglês, Hugh Laurie, um excelente médico no que diz respeito a montar quebra-cabeças no caso de diagnósticos difíceis.

Para apimentar o personagem, embora ele consiga identificar doenças raras e curar pacientes é incapaz de lidar com sua depressão de maneira sadia. Algumas pessoas consideram essa característica excitante, mas a questão é: O que tem de excitante nessa característica ? Penso que possa despertar, em alguns, a vontade de montar o quebra-cabeça mais difícil de todos, de usarmos nosso poder de sedução para descongelar sentimentos, o desejo pelo inatingível, o inatingível nos protege da entrega, pois o outro já estás defendido pelos dois.
A parte de si que ele mostra ao mundo, às pessoas, é resultado das defesas bem organizadas que ele teve que construir para sobreviver a algo que um dia ele teve, como amor, por exemplo, mas perdeu. Sabemos que ele já teve algum dia porque ele busca, e nós só buscamos o que sabemos ou pensamos existir. A elaboração do diagnóstico alheio pode ser o ensaio de uma busca pelo diagnóstico individual que vá curá-lo. A busca e o interesse são motivados pelo interesse individual em resolver enigmas, por trás está o seu próprio.
A defesa, neste caso, o protege de possíveis frustrações mas, ao mesmo tempo, o impede de vivenciar algo espontâneo, verdadeiro e que pode machucar, como provavelmente foi o que aconteceu em sua vida. Ele não quer uma reedição dos acontecimentos, mas uma vivência parecida com um final diferente.
Ele faz uso de auto medicação utilizando uma substância que fornece sensação de euforia, já que ele não deve suportar seu humor depressivo habitual. Porém, isso só alivia o sintoma, mas não trabalha a causa. Esta é uma de suas muletas emocionais que utiliza e, curiosamente, ele usa uma muleta-objeto para andar.
Um médico que não suporta sua própria dor e quer anestesiar-se não gosta mesmo de olhar nos olhos de um paciente e realizar um comunicado delicado, estabelecer uma conversa, uma conexão mais pessoal. Para isso ele utiliza suas muletas contratadas (Foreman, Chase, Cameron, Taub, Kutner e Remy "Treze" Hadley) para exercer essas tarefas “sujas” e outras com as quais ele tem dificuldade em lidar.
 Introspectivo, depressivo, traumatizado, rude, agressivo (para manter uma distância emocional que considera segura) e com poucos momentos onde revela sua humanidade, sua sensibilidade. Ou seja, um ser humano machucado em busca de si, ou do que foi perdido, protegido pela profissão e pelo status, mas impulsionado pelo trauma profundo que o torna um médico genial. A dor pode criar formas incríveis, embora nem sempre saudáveis.

O Planeta dos Macacos

Um filme com abertura pra muitas reflexões: A inteligência está a serviço do homem? O homem foi uma experiência de Deus que fracassou? Seria Deus criado a imagem e semelhança do homem ?

Taylor , Charlton Heston, está a bordo de uma nave que voa pelo espaço na velocidade da luz. Convive com alguns tripulantes que se submeteram a experiência de “vencer o tempo, correndo com ele”. Eles estão “confinados”  dois mil anos a bordo da nave (ano 3978 – ‘terrestre’), na busca da imortalidade.
A qualidade de vida que a tripulação leva parece bastante pobre. Passam longos períodos em encubadoras de vidro, em perfeita hibernação.
A queda da nave leva os tripulantes a um planeta com habitantes curiosos: Macacos. Eles são seres inteligentes, como uma “evolução do homem”. Construíram um sistema hierárquico, código de ética, todo tipo de inteligência a serviço dos macacos. Os chipanzés eram intelectuais, os gorilas militares, orangotandos políticos.
Durante o filme, Taylor procura provar sua humanidade acreditando ser esta a chave para sua liberdade, pois os outros “humanos” que habitavam o planeta eram muito primitivos e agiam como perfeitos macacos. Os humanos eram mantidos como animais irracionais (não eram estimulados para tornarem-se humanos, raciocinar, etc) que poderiam ser usados para diversas finalidades científicas, principalmente. Taylor tenta provar que não agia por repeticão, que era humano e muito parecido com os macacos, até superior, pensava. Tinha pensamentos próprios, era um típico exemplar da espécie humana, supostamente evoluída.
Dr. Zaius, Maurice Evans, o ministro da ciência e guardião da fé (guardião de segredos perigosos, que abalariam a fé da massa iludida) dos macacos, parecia sentir-se incomodado com essa possibilidade e via Taylor como uma ameaça, uma ameaça à paz, à manutenção do tão temido segredo.
Para finalizar, o diálogo entre Taylor e o ministro da ciência e guardião da fé, Dr. Zaius, explica o porquê do medo e necessidade urgente de cala-lo e eliminá-lo o mais rápido possível com a leitura de um versículo, escrito pelo primeiro macaco, equivalente a Jesus ou Deus, que fez as diretrizes e os “mandamentos” que são seguidos pelos macacos como uma bíblia.

“Cuidado com a besta humana, pois ele é o demônio. Entre os primatas de Deus este mata por cobica, ganância ou esporte”.

“Ele matará seu irmão para possuir mais terras…não os deixei procriar em grandes números poise le transformará sua própria casa em um deserto. Mande-o de volta para o seu covil, pois ele é o presságio da morte.”

Qual a função do ser humano na Terra? Temos alguma pré definida? Como saber qual e seguir em frente, certo de nossas ações? Temos muitas igrejas, filosofias e explicações que podem ser satisatórias, mas não temos como negar o rumo dos acontecimentos. Realmente o prognóstico para Terra e para humanidade não parece muito positivo, a não ser que grandes mudanças em muitas áreas ocorram rapidamente e concomitantemente.
A evolução trouxe a cura e a doença. Nos livrou de muitos problemas e causou tantos outros. A inteligência trabalha “a serviço do homem” ou contra ele? Somos éticos com o mundo? A inteligência nos torna superiores e poderosos? O que fazemos com esse poder, ou essa sensação?
Este filme é também um treino de humildade, nos remete ao nosso real significado, somos frutos de um tempo histórico, assim como foram os dinossauros um dia. Construímos muitas coisas, mas quem disse que daqui alguns séculos essa realidade proposta pelo filme não pode tornar-se, pelo menos, parcialmente real?